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segunda-feira, 19 de novembro de 2018

O que é a nação? O patriotismo verdadeiro e o patriotismo falso da era Bolsonaro.



Assisto ainda atônito ao estelionato eleitoral promovido por Bolsonaro. O mesmo nomeou hoje (19 de novembro de 2018) Roberto Castello Branco para a presidência da Petrobrás. Castello Branco era um desses que defendia que a Petrobrás não devia nem ter existido. Ele defende a privatização da estatal a qual agora controlará. Por que um homem desses foi posto a comandá-la? Penso eu, para o óbvio, para que ela seja tão depreciada quanto possível, a ponto de que não sobre outra alternativa senão entregá-la ao mercado financeiro internacional... Isto é aos Rothschild, a George Soros e aos irmãos Koch.

Se a palavra patriotismo significa seguir bovinamente liberais destruidores do país, se a palavra patriotismo significa prestar contas a um guru filosófico na Virgínia, que odeia o Brasil e tudo o que ele é, se patriotismo significa copiar de modo simiesco cada ação da política externa norte-americana, como fosse o caminho da salvação, então como definir o que eu sinto pelo país? É curioso que, Bolsonaro, cioso quanto a aprovação do mercado financeiro, não usou o termo nacionalista para se descrever durante a campanha, mas sim patriota.

No texto predecessor desse fiz uma saudação ao patriotismo tal como entendido por Gustavo Corção, do qual sou adepto por ser a justa forma de amar e honrar a nação. Entretanto, questionei se o dia que Corção tanto temeu, o dia em que a palavra patriotismo perderia tão completamente o seu significado, a ponto de que nos veríamos forçados a se declarar nacionalistas, não havia finalmente chegado? Eu acredito que sim, dado o que temos visto nesse proto-governo. Então, para distinguir dos experimentos pervertidos dos últimos séculos e, em especial, do último, criei uma nova distinção: O nacionalismo sadio, que é o bom e velho patriotismo. E o nacionalismo pagão, tais como o nazismo, o fascismo e outros "ismos".

Seja como for, o verdadeiro sentimento patriótico, ou ainda como propus, um nacionalismo são, sadio e cristão, não poderia jamais entender a nação como uma extensão do Estado. Mas sim a razão pela qual o próprio Estado existe, para protegê-la, guiá-la e defendê-la. Busco aqui Maritain (1959, p.14) para uma definição filosófica sensata do que seria uma nação.
"Uma nação é uma comunidade de pessoas que se tornaram conscientes de si mesmas, a medida em que a história as foi formando, que preservam como um tesouro o seu próprio passado, que se unem a si mesmas segundo creem ou imaginam ser, com uma certa introversão inevitável. [...] A nação tem, ou teve, um solo, uma terra - o que não significa, como se dá com o Estado, uma área territorial de poder e administração, mas um berço de vida, trabalho, sofrimento e sonhos."
O sadio nacionalismo visa preservar e defender essas pessoas, essas histórias e essas tradições, ainda que a custa dos próprios do corpo político estatal, ainda que a custa do próprio Estado. Contudo, vivemos num mundo instável, perigoso, e que vem assistindo os estados nacionais sendo derrubados e abocanhados um-a-um, ou pelo poder imperial dos Estados Unidos e seus aliados, ou pelos poderes supranacionais da ONU, do FMI, do BIRD, da OTAN e da União Européia. Logo, os avanços do globalismo e do internacionalismo do super-capitalismo contemporâneo, que tem no mercado financeiro internacional o seu braço econômico e no poder militar americano e da OTAN o seu braço militar, não podem ser contrapostos pela privataria, pela submissão geopolítica a política externa americana ou russa, ou ainda, pelo desmantelamento de bens que, por mais que mal administrados pela classe política, pertencem ao Estado brasileiro e, portanto, ao povo brasileiro.

A nação é, segundo o neotomista francês (1959, p.15), uma "comunidade de comunidades", a nação são as pessoas reais, concretas, nas suas situações históricas e existenciais mais palpáveis, e a defesa delas necessita hoje, mais do que nunca, que asseguremos que certos bens continuem pertencendo ao Estado. Que as forças armadas sejam revitalizadas e o orçamento militar ampliada e, especialmente, que o país volte a ter uma política externa independente. Deixamos de ter um projeto nacional de desenvolvimento. Deixamos de imaginar o país que gostaríamos de ser no futuro. Resumimos-nos, ao contrário, durante a república tucano-petista a projetos de poder partidários. 

E hoje? Hoje vemos aí, o governo títere de Bolsonaro, comandado pela banca internacional, com um time de ministros do mercado financeiro, e seguindo como se gado fosse as orientações da política externa vindas de Washington ou de um filósofo panenteísta que mora na Virgínia, que por ocasião de seu americanismo solar de tão claro e evidente, confundem-se em seus objetivos. 

Voltando à ideia de nação, podemos dizer analogamente à própria natureza hilemórfica do homem que se o homem é forma e matéria, a civilização brasileira tem na nação a matéria sobre a qual se ergue uma sociedade política - esta sim, racional tal como é da essência do homem racional a vida política.
"A nação é "acéfala"; possui elites e centros de influência, mas não uma cabeça ou autoridade dirigente; possui estruturas, mas não uma forma racional ou uma organização jurídica; possui paixões e sonhos, mas não um bem comum" (MARITAIN, 1959, p.15)
Essas coisas que a nação não tem, são construídas racionalmente, constituem o que chamamos de sociedade política. A nação não existe independente da sociedade, assim como o corpo não subsiste independente da alma. Uma civilização assim como o ser humano só existe como a junção de ambas as coisas. É a sociedade política com seus corpos políticos que têm líderes, que tem cabeça, que tem sistema jurídico e que é responsável por guiar o povo e a nação a um bem comum. 

O que o governo Bolsonaro nos tem proposto? Levar-nos ao buraco em troca de umas poucas migalhas em termos de riqueza material nos curto prazo, ludibriando sua base direitista com algum justo cuidado com a moral pública. Mas do que adianta proteger a moralidade dos nossos filhos e netos, se não terão casa para morar? Se não terão futuro? Se se destrói o Estado, como preço, o órgão social que têm por função defendê-los? Não seria uma vitória de Pirro? É, por fim, um governo que não é preocupado com a nação, com a pátria de verdade, mas apenas com um emaranhado confuso de postulados ideológicos anti-esquerdistas totalmente irresponsáveis, oriundos de think tanks liberais, de um astrólogo maluco e de seitas neopentecostais que no fundo adorariam ver o Brasil se tornar o 52º estado da união política norte-americana.

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MARITAIN, Jacques. O homem e o Estado. Rio de Janeiro: Agir, 1959.

domingo, 18 de novembro de 2018

Bolsonaro e o nacionalismo sadio ou patriotismo.


Gustavo Corção em 1957 escreveu a obra "Patriotismo e nacionalismo", condenando o último e elogiando o primeiro. A um olhar descuidado pode parecer que Corção fechou para sempre, para um católico as portas do nacionalismo. Penso ao contrário, acho que Corção entende mal alguns nacionalismos de seu tempo, justamente por ser um democrata cristão àquela altura, que na verdade tinham mais a ver com o tipo de patriotismo que ele defendia do que com os nacionalismos pagãos de Itália e Alemanha na segunda guerra.

Para Corção, a palavra nacionalismo poderia ser empregada em dois contextos, um ilegítimo e essencialmente mau e pervertido, e outro legítimo com alguns limites. Para ele, o nacionalismo era essencialmente um orgulho desvairado da nação, egoísta e ressentido, que afirma o país e o seu Estado em detrimento dos demais povos e orgulhos nacionais. No segundo sentido, o nacionalismo era o processo pelo qual o Estado assegurava a posse de bens e serviços através de um monopólio estatal, o que vez ou outra poderia ser justificado.

Para o autor, a verdadeira virtude não se encontrava no nacionalismo, mas sim no patriotismo, que consistiria num meio termo entre a perversão do sentimento de amor ao país, tornando-se mesquinho e totalitário, e o completo entreguismo apátrida, o internacionalismo ou o que conhecemos hoje como globalismo.

Contudo, embora concorde com Corção quanto a maior propriedade do termo patriotismo, passamos já para uma época em que seu significado se perdeu por completo, e de tão banalizado, passou a significar algo que não muito se distingue do entreguismo apátrida supracitado. Corção reconhecia essa possibilidade (1957, p.43):

"Em suma, se houve uma evolução semântica temos de aceitar o resultado do processo, e não vale a pena quebrar lanças para restaurar o valor antigo de uma palavra".

Assim, vê-se que para ele, caso o patriotismo perdesse seu significado, o termo nacionalismo seria justo. Todavia, em seu tempo, Corção (1957, p.43) via essa evolução semântica ainda como inconclusa, e que portanto, ainda era possível lutar pelo justo termo: "Não me parece, entretanto, que o processo evolutivo tenha chegado a um termo que nos obrigue a aceitar o novo sentido". Hoje, entretanto, 61 anos depois, a situação parece-me distinta. A palavra patriotismo virou, quando não mera retórica para enganar as massas ocultando os velhos adversários da fé católica, o liberalismo e o americanismo como vistos a céus claros na campanha de Bolsonaro, apenas a descrição de um estado subjetivo da psique, uma emoção e sentimento de orgulho perante símbolos e hinos nacionais. Ou seja, patriotismo virou o Maracanã cantando o hino a capella na Copa do Mundo. Só.

Quando se fala em nacionalismo, as pessoas, ao contrário, associam à defesa aguerrida da honra nacional, de sua história, tradição e valores. De seus heróis e mitos nacionais. De seus símbolos e hinos também, mas sobretudo, ao respeito e a busca pelo engrandecimento da mesma no plano das relações exteriores, da geopolítica (o palco das nações), mas a nível micro, da busca pela prosperidade moral e material das famílias e comunidades que compõem a nação. Em outras palavras, quer como cidadão privado ou homem público de Estado, nacionalismo passou a significar a luta e a busca pelo bem comum e pelo justo fim do povo que constitui a pátria, perante a história e a eternidade.

Vemos a distinção quando Bolsonaro usa durante a campanha jargões patrióticos, símbolos nacionais, orquestra as massas com camisas verde e amarelas da seleção e gritos de guerra, e na sequência presta continência a bandeira americana sem qualquer obrigação diplomática a isso, e promove a usura nomeando banqueiros para funções altamente relevantes de Estado, promove o discurso da liquidação do patrimônio do Estado nacional, privatizando e vendendo tudo aos americanos na bacia das almas, e permitindo que os neopentecostais e gnósticos coloquem o país numa posição bem desfavorável no teatro das nações, assumindo lado em conflitos que não são nossos como no mundo árabe (mudança da embaixada de Tel-Aviv para Jersualém) ou embarcando na guerra comercial com a China, nosso maior pareceiro comercial. 

Assim como a nação é um conjunto de comunidades, que por sua vez são constituídas por famílias; as nações coletivamente também têm parentescos. Uma dessas maiores demonstrações é a ideia de iberismo, lusitanidade ou hispanidade. Uma política patriota ou sadiamente nacionalista (no seu sentido contemporâneo), envolve um respeito e uma atenção caridosa aos países que compartilham conosco a mesma semente cultural, linguística, religiosa e histórica, tais como os países lusófonos espalhados pelo mundo, como Timor Leste, Angola, Moçambique, Cabo Verde, e a nossa amada pátria-mãe, Portugal. Ou ainda, aos nossos irmãos espanhóis, como os argentinos, venezuelanos, colombianos, uruguaios, mexicanos, e etc. A atenção a órgãos como CPLP e Mercosul são fundamentais para uma política francamente patriótica e, portanto, sadiamente nacionalista, para a resolução de nosso problemas políticos, econômicos e morais. 

Mas o que vimos foi o contrário, Paulo Guedes menosprezar o Mercosul. Vimos Bolsonaro nomear um gnóstico para o Itamaraty, a mando de Olavo de Carvalho, que sabidamente é uma pessoa que odeia o Brasil e os brasileiros mais do que tudo, e que vê na nossa americanização voluntária ou compulsória, a força que pode salvar os brasileiros de si mesmos, tornando-se menos brasileiros no processo. Isso para não voltar a tratar da "banqueirada" já mencionada anteriormente, espalhando a usura do Oiapóque ao Chuí.

O general Oswaldo Ferreira, um legítimo patriota e que me parece um nacionalista na tradição de Médici e Geisel, acabou excluído do governo por razões pessoais, mas sabe-se também que ele representa a ala do exército (como já mencionado acima) que se opõe ao liberalismo econômico e ao americanismo triunfante. Ao contrário, na sua monografia sobre os problemas energéticos e da exploração do petróleo na América Latina, feita com o intuito de adentrar ao Estado-maior, o mesmo recomenda que o Brasil estreite e aprofunde seus laços com os países latino-americanos. O que faz-se agora entretanto? Busca-se ajoelhar-se perante Israel e os Estados Unidos chorando por migalhas!

Créditos à Reação Nacional e a Eduardo Cruz
Curioso como ninguém percebe que o nacionalismo judaico e o nacionalismo americano têm um carácter materialista e desenraizado, o que faz com que a sua afirmação acabe por coincidir e depender necessariamente da destruição das nacionalidades alheias. Não são nacionalismos sadios, que como diria Corção, na pior das hipóteses, terminaria num "isolacionismo emburrado com laivos de indianismo". Ao contrário, o nacionalismo judaico e o americano são voltados para o imperialismo. Por isso defino-me em relação aos dois como um cético. Um americano-cético e um sio-cético.

Portanto, urge a necessidade de recuperar o termo nacionalismo para nós, pois o termo patriotismo tornou-se "tão outra coisa" e tão depreciado, que por fim das contas, quando não se refere apenas a "tremiliques" emotivos, refere-se mais a uma abordagem entreguista ou de enganação das massas. O verdadeiro e sadio nacionalismo, são, cristão, católico, luso-hipânico é precisamente o velho e esquecido patriotismo de Gustavo Corção. Mas distinto do nacionalismo violento, totalitário e pagão, ele se preocupa com pessoas, famílias, cidades, bairros e comunidades reais, concretas, e acima de tudo, respeita a dignidade da pessoa humana. Ele quer contribuir com a grandeza da nação contribuindo ao mesmo tempo com a grandeza da humanidade. Dando um sentido a história e as tradições do povo diante de Deus e da história.

Aprendamos com os erros do neoconservadorismo americanista e liberal, e construamos uma verdadeira reação nacional.

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REFERÊNCIAS:

CORÇÃO, Gustavo. Patriotismo e nacionalismo. Rio de Janeiro: Editora Nacional de Direito LTDA, 1957.

FERREIRA, Oswaldo. Energia elétrica e petróleo na América Latina. Rio de Janeiro: ESG, 1991.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Sobre fazendas e espantalhos - Post de encerramento.


Para evitar entulhar o Minuto Produtivo com essa discussão, decidi terminar essa discussão no Grupo de Estudos Ludwig Erhard. Como um post de encerramento, prometo ao leitor que acompanhou este diálogo que não verá mais postagens a respeito desse tema. Em seu texto tréplica no debate acerca do quão direitistas os liberais são e quanto se opõem ou não a esquerda Roger diz:

O velho conhecido diz:
Que o colega me perdoe, mas esta afirmação é simplesmente mentirosa. Dentro do contexto brasileiro, sobretudo nos últimos tempos, liberais tem sido a maior força anti-esquerda que esse país já viu.
Ora, o PSDB é esquerda e é contra o PT pois está mais a esquerda que ele, assim como o PSTU é contra ambos pois se considera mais esquerdista que PSDB e PT. Ser uma força política contra a esquerda não te faz um direitista. Aliás, essa questão está muito bem respondida na minha réplica onde eu digo: "Sim, se os liberais não são de esquerda, no mínimo estão mais próximos dela do que os conservadores. Mas não em termos relativos e sim em absolutos.

O que diferencia a oposição de um conservador ao comunismo da oposição de um social-democrata ao comunismo? Ambos estão a direita dos comunistas, mas somente o conservador o está em termos absolutos. O social-democrata em termos relativos. Assim também o é o liberal. Citei como evidência disto inúmeros autores que vão desde tradicionalistas luso-hispânicos como José Pedro Galvão de Sousa a comunistas como Karl Marx, sem deixar entretanto de passar por democratas cristãos (como eu) e conservadores liberais. Não, não é puro name dropping,  e sim uma citação de um fato que poderia ser constatado caso qualquer um dos leitores decidisse consultar a obra dos citados autores. Para mim, ser direitista (que é sinônimo de conservadorismo) exige um pouco mais que defesa do livre-mercado.

Na sequência:

"A saber, não é preciso esforço para achar liberais que apoiem ideias de direita, e é mil vezes mais fácil encontrar um liberal que se diga "liberal-conservador" do que um que se diga "liberal de esquerda."

Não me lembro de ter negado que liberais poderiam apoiar ideias de direita. Pois, caso bem me lembre, postei: "Pode, é claro, existir algum liberal que nutra sentimentos conservadores, como Burke.". Sim, é verdade que existem conservadores liberais no Brasil, e são a maioria dos conservadores na rede hoje. O ponto central é minha crítica aos que se chamam liberais e negam serem conservadores. E é um grupo cada vez mais crescente, tanto que até o Rodrigo Constantino percebeu.

No MBL mesmo isso é visível. No processo de achincalhamento público contra o MBL feito na CPI dos crimes cibernéticos, em dado momento Rubens Nunes, membro e advogado do MBL é acusado de ser conservador. Algo que ele prontamente nega, apontando para Jair Bolsonaro e Feliciano como sendo conservadores e prontamente erguendo sua voz como sendo o MBL "um grupo liberal".

Ora, que diferencia então um conservador liberal de um liberal? Talvez seja o fato de que o liberal não é conservador em nenhum sentido. E isso me parece bem referenciado por Ubiratan Borges de Macedo em texto prévio. Em resumo, ser rival do PSOL e do PSTU é algo louvável, mas não é o bastante pra fazer de você um direitista. Como já disse em outro post do MP, ser a favor do livre mercado não faz de você um direitista. Até o Tony Blair andou privatizando escolas e desburocratizando a economia, nem por isso o vejo como um direitista.

Quanto ao movimento conservador, ele tem infelizmente seus problemas. Mas vejo conservadores sim em organismos políticos. Os próprios Bolsonaro e Feliciano são conservadores a seu modo cada um. Feliciano ao juntar a defesa do liberalismo econômico com o do moralismo religioso se aproxima dos theoconservatives americanos, cujo nome mais sonante é Mike Huckabee. Bolsonaro é um nacional-positivista de direita, um típico representante dos meios militares. Pode ser chamado de extrema-direita. O que diferencia nesse caso um do outro? Um princípio fundamental que abordarei mais abaixo: A Lei Natural.

Não sei porque cargas d'água criou-se no Brasil a ideia de que só há um conservadorismo. Aquele transmitido pelas fontes anglo-saxônicas. Existem várias formas e perspectivas conservadoras, umas mais reacionárias outras menos. Reduzir o conservadorismo ao conservadorismo liberal britânico é ignorância pura e simples. Certamente os conservadores liberais tem enorme mérito em suas obras e ações políticas, mas eles não encerram a existência do mundo conservador.

O meu velho conhecido diz que eu minto ao dizer que a direita sempre "prefere uma economia livre". Mas eu não disse isso. Na verdade, disse: "A direita, geralmente, prefere uma economia livre.". Como Theodore Dalrymple várias vezes afirma em seu livro "Em defesa do preconceito", quando falamos em termos gerais, é para separar das exceções. O comentarista subitamente se esquece dessa passagem que escrevi no texto:
"Com isso tivemos muitos conservadores keynesianos moderados, como Winston Churchill e Harold MacMillan, isto para não mencionar Konrad Adenauer, que embora não fosse keynesiano, também não era liberal. Ou, para ser mais didático e objetivo, lembremos dos Tories antes de Sir Robert Peel. Eram agrarianistas ou defensores do mercantilismo. Ou mesmo os nossos velhos “saquaremas” do Império do Brasil, homens muito mais simpáticos a centralização administrativa e ao desenvolvimentismo do que os seus rivais, os liberais ou “luzias”."
Scar produziu um excelente espantalho, pena que foi descoberto.

Continuando...
Veja que ele determina "direita" como sendo aqueles que lutam em prol de tradições, moral e cultura. Dentro desta premissa, que não é minha, mas dele, poderíamos supor que nacionalistas e até mesmo socialistas ortodoxos são "de direita" e, portanto, totalmente desfavoráveis a uma economia livre.
Veja que curioso, nacionalistas são conservadores? Alguns tipos podem ser sim conservadores, embora nem todos. Socialistas ortodoxos? Não. Não há na história do socialismo um engajamento na defesa das tradições, da moral e dos costumes sem ser por puro utilitarismo momentâneo. Ora, como o próprio Dalrymple cita, o utilitarismo foi uma das bases da libertinagem moral em nome da luta contra o preconceito na Europa (cita J.S. Mill inclusive). Que pode haver de conservadorismo nisso? Quando Stalin proibiu o aborto, não o fez porque achasse que o feto era vida humana, mas sim porque aquilo lhe era politicamente conveniente. Quem mostra isso é Michael Volensky em A nomenklatura, ainda que de relance.

O que difere, pois, a extrema-direita da direita? A lei natural. A extrema-direita toma a tradição, os costumes e a moral como fins em si mesmos a ponto de negar a própria lei natural que as justificam. Mas quando me refiro à lei natural, não me refiro ao jusnaturalismo liberal e sim ao direito natural clássico que se estende de Aristóteles a Giambattista Vico passando, é claro, por São Tomás de Aquino. -- Recomendo a obra de José Pedro Galvão de Sousa "Direito Natural, Direito Positivo e Estado de Direito" para melhor compreensão. -- Os conservadores da direita tradicional entendem a lei natural como fonte de sua defesa desses valores. Portanto, sendo contrário ao direito natural o fim da propriedade privada, um conservador, por mais estatista que seja, jamais abolirá a propriedade privada.

A extrema-direita diferencia-se de extremistas de esquerda por tomarem por fim esses valores como se fossem princípios. Ou seja, um mero repetir histórico de tradições e fatos sem a devida fundamentação metafísica. Um sólido objeto concreto de pura existência sem essência (para lembrar-nos de Kierkegaard). O descolar da tradição de seus valores e sua exaltação dionisíaca e idealizada faz com que um extremista de direita decida passar por cima da vida e da liberdade em nome deles.

Fica então bem resumido a diferença:

1- Conservadores/Tradicionalistas/Democratas Cristãos - Entendem que os valores e a moral derivam da lei natural e portanto, sua defesa é desejável na medida em que as ações defensivas estejam pautadas nesses mesmos valores. O histórico depende do essencial.

2- Nacionalistas de direita - Vêem as tradições como um bloco concreto e descolado dos valores que as fundamentam, um objeto de culto. A idealização e romantização desses valores e da sociedade tradicional faz com que os extremistas levem as ultimas consequências suas ações em defesa desses elementos. O Nacionalista transforma o histórico, temporal e particular em princípio universal sobre o qual monta seu púlpito e aponta o dedinho em riste para aqueles que são diferentes. Ninguém trabalhou melhor isso do que Gustavo Corção em "Nacionalismo e Patriotismo". O nacionalista, ao contrário do patriota, acha que o mundo todo lhe deve tudo.Quando se trata de um nacionalismo defensivo e emburrado como o brasileiro, não há problemas em chamá-lo de conservador. ele costuma violar sua faceta conservadora quando se torna um nacionalismod e tipo fascista e portanto agressivo a outros povos e nações.

3- Socialistas ortodoxos - Estes quase sempre a moral como um elemento que pode ser útil ou não a a depender do cenário político. Se como antigamente, para falar á classe operária era útil o moralismo, hoje ao contrário parte-se pro outro lado. Como a classe operária segundo os modernos teóricos do marxismo "se corrompeu", fica mais fácil trocar o proletariado pelo lumpemproletariado. Fica evidente que a moral nunca foi exatamente um tema importante do socialismo. Prova disso que o Manifesto Comunista já fala em seu capítulo dois na dissolução da família e o fim do casamento. Nada há de conservador em comunistas e socialistas ortodoxos, são relativistas.



Por fim, o velho amigo diz:

"A legítima direita é aquela que numa situação hipotética, em que se tenha que escolher entre a tradição e a economia, pesando na mesma balança eficiência econômica e os valores que a sociedade construiu ao longo de séculos, escolhe os valores."
Errado, sr. Arthur. Muito errado.
Não existe essa história de escolher entre os valores ou a economia. Não para os liberais. Para nós, são os princípios éticos que vêm primeiro. A economia vem depois, como consequência deles. Livre-mercado não é um princípio do liberalismo, é um fim. Nós lutamos para chegar a isso e sabemos que, para que aconteça, é necessário passarmos antes por questões éticas que envolvem, naturalmente, questões sociais, políticas e morais. Nós nunca precisaremos escolher entre "valores" ou "economia", pois nossos valores têm na economia apenas uma finalidade lógica, não uma prioridade.

Duas constatações aqui:

A primeira e mais evidente é que o sr. Roger não percebe (ou finge não perceber) é a palavra "hipotética" ali. Na maioria dos casos não costuma haver contradições entre ambas, mas disso não se conclui que não possam haver em algumas situações. E quando há, a primeira coisa que a direita faz é ficar com os valores. A legítima direita não joga as tradições e os valores expressos através da lei natural (onde homem participa com a razão na lei eterna) pela janela em troca de dinheiro. O conservador entende o indivíduo enquanto pessoa concreta e espiritual. Pessoa essencial e existencial, eterno e histórico. O liberal a quem ataco geralmente vê apenas como uma essência apriorística através da qual tudo se resume e tudo se explica ignorando tudo o demais que for mero acidente da substância.

A segunda e que o liberal toma o livre-mercado como um fim em si mesmo. Sim, é isso o que eu disse. Através dos princípios abstratos do individualismo, o liberal não procura a justiça, a honra, a beleza e moral como fins últimos da sociedade política, mas sim a pura e simples livre-troca de mercadorias ou, pelo menos, a ação livre dos cidadãos. Isso tudo confirma minha tese e em nada a contradiz. Um liberal puro e simples não pode ser de direita. Acaba se caindo na moral kantiana baseada na pura separação de fato e valor, onde como bem pontua José Pedro Galvão de Sousa e Jacques Maritain, o único objetivo dos princípios é garantir a liberdade de ação dos indivíduos.

Confesso não entender muito de fazendas e espantalhos, mas para quem me acusara de criar um boneco de palha, é no mínimo constrangedor perceber que a uma comparação rápida entre meu texto e a resposta de meu velho amigo revela uma plantação de espantalhos numa estranha fazenda, onde se erguem alfaces em estacas pra espantar os pássaros-refutadores.

segunda-feira, 6 de julho de 2015

MacIntyre e a ética das virtudes: uma adaptação política.


Alasdair MacIntyre é um dos vários pensadores da Democracia Cristã, e foi nele que baseei a crítica ao individualismo liberal nestes dois textos (1, 2). MacIntyre é famoso por sua crítica devastadora a John Rawls no livro "After Virtue". Mas aqui gostaria de chamar a atenção para o seu segundo livro: "Justiça de Quem? Qual Racionalidade?" onde ele questiona uma vez mais a ética autista do liberalismo e propõe o comunitarismo baseado numa ética das virtudes.

Alasdair não trabalha com a palavra tradição no sentido empregado pelos perenialistas como significativo de religião. Ele se refere no sentido filosófico, isto é, de uma tradição filosófica que pode ser religiosa ou não. Neste sentido ele aponta que o indivíduo autônomo e independente do liberalismo, totalmente responsável de suas ações em toda a sua existência não existe na realidade. Todo ser humano está inserido numa cultura e quer ele goste disso ou não; e ela influencia no modo que ele pensa e age, quer ele goste disso ou não. Embora os racionalistas invencíveis do liberalismo, crentes no homo economicus, relutem e lutem contra isso, qualquer pessoa que se dê ao trabalho de investigar minimamente esta afirmativa, perceberá que ela é verdadeira. Sugiro nesse sentido o excelente livro do psicólogo e jornalista David Mcraney: "Você não é tão esperto quanto você pensa: 48 maneiras de se auto-iludir" publicado pela editora LeYa.

E é por isso que pensar a ética com base na tradição é tão fundamental, pois é pensar o sujeito humano mais próximo possível da realidade. E por estarmos envoltos numa tradição, num ambiente cultural, numa ideologia ou numa cosmovisão, significa que nossa percepção do mundo é minimamente alterada por um conjunto de ideias e valores que nos transcendem no tempo e que não foram criados por nós. E pior! Nós as abstraímos muito antes de termos idade de consentimento ou de refletir sobre elas. Qualquer dúvida a respeito, recomendo o trabalho dos psicólogos Jean Piaget, Reuven Feuerstein e também do neurocientista Stanislas Dehaene. Essa certa "deformação cultural" não impede o conhecimento objetivo da realidade, mas prejudica em alguns casos sua observação.

Por se tratar de uma tradição, logo estamos falando de interações sociais e construtos culturais que são parcialmente ontológicos e parcialmente convencionais e ideológicos. Ora, há aspectos socioculturais que são universais mesmo para povos que nunca tiveram contatos uns com os outros, e que são hoje, como visto pela psicologia evolutiva como imposições biológicas da própria natureza. Ou seja, são resultados ontológicos de nossa própria natureza. O casamento por exemplo, ou a família. São traços universais. Esses traços aparecem das mais variadas formas nas diferentes culturas, mas sempre aparecem. Por exemplo: Todos nós conhecemos os ritos de passagem antigos. No judaísmo há o Bar Mitzva, em sociedades tribais há várias outras formas, como jovens indo fazer sua própria caça, ou moças que em algumas culturas da África subsaariana tinham que ter certa experiência como meretrizes para passar da vida infantil para a adulta, enfim... Esses ritos surgem devido a necessidade de prover proteção e trabalho para a sobrevivência da espécie humana, pois em algum momento é necessário definir quando um indivíduo está pronto a assumir seu papel social. Nós provavelmente conhecemos essa mesma forma no ocidente sob a fachada do "baile de debutantes", onde jovens de 15 anos são apresentadas para a sociedade como mulheres.

Todo construto cultural nunca é de um ser humano isolado, mas sim resultado da interação entre inúmeros indivíduos que constroem sem perceber um universo de significados e significantes e os repassa adiante ao longo de gerações. Então, não é possível falar de ser humano e ao mesmo tempo se ignorar sua posição social - posição social aqui não significa apenas posição socioeconômica - pois é a partir dela que o ser humano começa a abstrair as informações iniciais sobre as quais levantará seu arcabouço de conhecimentos, opiniões e impressões sobre o mundo.

Alasdair MacIntyre
Voltando a MacIntyre, é forçoso notar que quando ele propõem uma ética das virtudes é justamente pensando neste meio social, nós como seres humanos não estamos sozinhos e para alcançarmos qualquer objetivo maior precisamos e somos impelidos de certa forma a lidar com nosso próximo. Assim, para o filósofo escocês, o correto é pensar o indivíduo humano não como um universo totalmente autônomo e racional de vontades e opiniões independentes, mas sim pensar o ser humano em função de suas relações sociais. O primeiro horizonte de contato social que um ser humano tem é com a sua família, e na sequência com sua comunidade (bairro, rua, cidade, etc.). Então, devemos pensar nesse leque de relacionamentos quando pensamos nos seres humanos.

Ora, qualquer pessoa sabe que os relacionamentos humanos possuem características valorativas. Existem bons relacionamentos e maus relacionamentos. Logo, partimos para a esfera dos valores. O neotomista escocês percebe que na antiguidade clássica isto é perfeitamente observável. Quando Platão ao descrever Sócrates n'A República trata da temática Pólis ideal, o centro da discussão é a justiça. Ora, para Platão a sociedade ideal era aquela em que os homens tendiam a justiça, a busca dessa virtude era o norte e essa virtude era sacramentada nas leis da Pólis, desde o rei-filósofo passando pela educação até o mais humilde dos cidadãos. Aristóteles, o estagirita, por sua vez foi mais longe e complementou em Ética a Nicômaco que cada função social possui sua virtude. Qual seria afinal a função do bom tocador de flautas se não tocar flauta bem? Assim, o bom legislador é aquele que faz leis boas e o bom cidadão é aquele que cumpre as boas leis. Outro grande democrata cristão que é Gustavo Corção pensava igualmente em relação ao sentimento patriótico. O patriota não é o homem que vive de ostentar símbolos, brasões e bandeiras nacionais, que canta o hino com emoção. Não. O verdadeiro patriota é aquele que engrandece sua pátria e o bom patriota é o que faz dela um lugar melhor para se viver.

Essa preocupação decorre de que sendo virtuosos e procurando a virtude naturalmente as relações sociais da pólis tenderão a virtude. Assim, pois, a ética das virtudes é aquela que as relações sociais devem buscar relações que façam não apenas o bem para si, mas também para o próximo. Eis uma das razões de porque o libertarianismo (como o suprassumo da evolução do pensamento liberal) soa tão aterrador para um democrata cristão ao advogar como normal que um pai não seja punido por deixar um filho ainda bebê morrer de fome por simples uso de sua liberdade individual.

Mas o que é virtude? Isso dependerá obviamente da base cultural em que se assenta determinado grupamento social. Basta lembrar que Platão e Aristóteles viam como naturais a escravidão, ao passo que hoje o homem moderno a vê com olhos de abominação. MacIntyre é também um hegeliano e ele acredita que novas tradições filosóficas sempre surgem para complementar os erros das outras (embora nem sempre sejam bem sucedidas nisso). Com isso, ele ao explorar uma certa noção de tese-antítese-síntese vê com bons olhos quando uma tradição diferente é bem sucedida em resolver um problema da antiga sem destruí-la e, ao contrário, aceita-a como parte de si. Um exemplo maravilhoso dado por ele no livro "Justiça de quem? Qual racionalidade?" é o de Tomás de Aquino.

A liberdade guiando o povo - Delacroix: Símbolo do iluminismo.
São Tomás de Aquino toma uma tradição cristã moldada no platonismo através de Santo Agostinho de Hipona (que havia feito a mesma coisa que ele no passado) e tenta adaptá-la e encaixá-la num raciocínio Aristotélico. E assim ele o faz com maestria. O iluminismo traz consigo duas tradições liberais que se chocariam. O iluminismo escocês, sem problemas em olhar para o passado e as tradições e o iluminismo francês ressentido com tudo o que lhe antecedeu. Ambos surgem como uma nova tradição, mas um deles recusa-se a olhar para as outras e se misturar com ela nessa relação dialética, convertendo-se numa tradição anti-tradicional. O iluminismo francês, odiento quanto ao seu legado vence o iluminismo escocês e se espalha pelo mundo, ao passo que este último quando não apenas regionalizado, vê-se cada vez mais corrompido pelo vencedor, como vimos num dos textos acima "linkados". O Estado Americano nada tem a ver com o iluminismo escocês, ao contrário, ele é o retrato mais moderno do iluminismo francês baseado no individualismo e no progressismo. O iluminismo francês ao negar-se olhar para o passado e aprender algo com ele procura olhar para o vazio irrealizado do futuro.

Assim, parafraseando MacIntyre (1991, p.184):
Na controvérsia entre tradições opostas, a dificuldade de se passar do primeiro estágio para o segundo é que é necessário um raro dom de empatia, bem como intuição intelectual, para que os protagonistas de uma tradição sejam capazes de compreender as teses, argumentações e conceitos de outra, de modo tal que consigam ver a si próprios a partir de outro ponto de vista e de voltar a caracterizar suas crenças de maneira apropriada, a partir da perspectiva da tradição oposta.
Os teóricos do iluminismo francês, ao contrário do que diz MacIntyre quando não tomavam influências das tradições que lhe antecederam sem lhes dar os devidos créditos, demonizaram completamente o período que lhe antecedeu. Todas as acusações dos iluministas franceses a Igreja Católica como retrógrada, anticientífica, e à Idade Média como a Idade das Trevas e do obscurantismo caracterizam-se como exemplo perfeito dessa mentalidade. Assim, partindo de uma reflexão sobre o Estado americano e levado em consideração o que vimos nesse textos e nos dois anteriores acima marcados, podemos começar a pensar uma tradição política onde um Estado pautado pela ética das virtudes poderia existir. Este Estado deveria ter em suas instituições políticas não só o respeito pelo passado e a disponibilidade de aprender com ele, mas também leis que estimulem a busca das virtudes que caracterizam convivência social sadia e isso implica em abrir mão do universal-abstrato de direitos chamado "indivíduo". Ou seja o centro do direito não deve mais ser apenas o indivíduo mas também a pólis, mas não num sentido "escandinavo" de uma grande comunidade secular sempre olhando para o futuro não preenchido, e sim para o passado e para as tradições que nos antecederam e que Arnold Toynbee muito bem liga ao legado religioso que funda toda e qualquer civilização. Num Estado confessional como são alguns estados mundo afora, encaixar a noção agostiniana da Civitas Dei é mais fácil, onde se pode estimular com mais naturalidade uma vida pautada na conduta do bom cristão, o santo. Mas num Estado laico essa situação é muito mais difícil, pois este como mostra Olavo de Carvalho em "O Jardim das Aflições" é uma enorme máquina de secularização em massa.

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MACINTYRE, Alasdair. Justiça de Quem? Qual Racionalidade?. São Paulo: Edições Loyola, 1991.

domingo, 29 de março de 2015

Foucault vs. Scruton - Alguns pontos contra o guru da nova esquerda.


No livro "Os pensadores da nova esquerda", Roger Scruton, um dos mais proeminentes filósofos ingleses, se dedica a analisar o pensamento dos ícones da esquerda contemporânea, àqueles velhos gurus do apoteótico Maio de 1968. Num de seus capítulo de análise e refutação de tais filósofos, Scruton se pega delineando o guru-mor da seita politicamente correta: Michel Foucault.

Michel Foucault
O ponto central de Foucault é aquilo que o filósofo brasileiro Gustavo Corção chamou a atenção de relance em "O século do nada". Se no passado os filósofos, os grandes pensadores e mestres partiam do alguma coisa pra entender o mundo, e apenas alguns partiam do nada; hoje todos partem do nada para o lugar algum. Para Foucault não existe realidade objetiva, não há verdade objetiva, nem moral objetiva, enfim, Foucault parte do nada. Tudo o que chamamos de verdade é sempre uma verdade adaptada a uma episteme, de alcance histórico pequeno e particularizado, que guarda sempre em suas entranhas os interesses da classe dominante.

Assim, criando um pensamento filosófico pretensamente ex-nihilo, fica muito evidente que Foucault tem certezas demais pra quem começa negando toda e qualquer verdade absoluta. A princípio fica claro como destaca o "coleguinha" Scruton que Foucault segue a base fundamental da história "for dummies" do "Manifesto Comunista" de Karl Marx e de seu boneco de ventríloquo Engels (2014, p.64). Assim, separando a realidade em época clássica e em época burguesa, Foucault começa a análises "arqueológica" do "poder". Para quem rejeita verdades absolutas como duração universal e aptas para explica a realidade como um todo independente de cada episteme, Foucault já começa com a universalidade das categorias marxistas do "Manifesto". Começou muito bem... Começou bem...

O "esquerdista caviar-mor" - para imitar Rodrigo Constantino, já que o habitat natural do "gauchiste" eram os cafés de Paris, ambiente tipicamente classe média alta - tem como objetivo (2014, p.59)
"[...] a busca pelas secretas estruturas de poder."
O que isto quer dizer?

Nada, como veremos mais ao final.

Para Foucault, toda "verdade" é na "verdade" um discurso político com vista a exercer poder sobre algum conjunto de infelizes e pobres coitadinhos que não fazem ideia de onde vem o ponta-pé no traseiro, a paulada na cabeça e o julgo de seu sofrimento. Foucault define as estruturas do saber nunca como objetivas, mas sempre como relativas e úteis a uma época específica. A isto ele chama de episteme, isso quer dizer que o conjunto de ideias aceitas como verdadeiras variam de acordo com o interesse da classe dominante. O único critério objetivo na construção dessa "verdade" científica de época é o interesse de uma classe manter o seu poder.

Por isso em "A história da loucura" Foucault trabalha com a ideia de que não existe uma categoria objetiva chamada de "louco". O "louco" é só um indivíduo - por assim dizer - que porta uma "verdade" que não se adapta a uma episteme hegemônica - parodiando Gramsci. Em suma, o louco tem um potencial revolucionário que põe em risco a estrutura de poder vigente, e que portanto, o louco precisa ser anulado, enclausurado e tratado como uma aberração. E como o louco se manifesta como louco em uma determinada época? Por meio de seu discurso afrontador do establishment, é óbvio! Scruton aponta o problema na seguinte ordem (2014, p.62):

Roger Scruton
Era claro no século XVIII, de acordo com Foucault, que, enquanto a loucura era capaz de expressar a si mesma, ela não tinha linguagem na qual fazê-lo se não a que a linguagem oferece. A única fenomenologia da loucura reside na sanidade. Certamente, então, o século XVIII tinha no mínimo uma intuição sensata sobre a natureza da desrazão? A província da linguagem e a província da razão são coextensivas, e se a loucura contém suas próprias "verdades", como Foucault proclama estas são inexprimíveis. Como, então, podemos imaginar corretamente uma "linguagem" da desrazão na qual as verdades da loucura são expressas, e para a qual agora devemos afinar os ouvidos?
Isto é, se a linguagem da loucura guarda sua própria verdade, e ela não pode se expressar pois a única linguagem disponível é a da razão, que por definição não é a linguagem do louco, como podemos nós, se prontificar a entender a verdade da loucura sendo que nós somos apenas seres normais utilizadores da linguagem da razão? Isto é só uma diferença de codificação na linguagem ou uma diferença de lógica? Bem, pelo contexto que Foucault explana bem, fica evidente pra mim que se trata de uma diferença de lógica. Temos aqui um polilogismo. Pior! Temos também uma contradição performativa, pois, a não ser que Foucault se considere louco e, portanto, portador dessa "verdade" da loucura, como pode ele ser o homem capaz de nos demonstrar que existe essa linguagem da não-razão? E mesmo que Foucault se pretendia de fato como um dos loucos que ele tanto louva, como ele pretende através da linguagem da loucura, exprimir para nós, meros seres racionais e normais, a verdade da loucura? E mesmo que ele não pretendesse explicar qual era essa verdade, mostrar simplesmente a existência de uma "verdade" diferente da nossa já pressupõe que de algum modo ele seja capaz de reconhecer um outro padrão (ou não-padrão) lógico. Como isso seria possível sem cair no mesmo mal que diagnostica, que é a impossibilidade de fazer a verdade da loucura chegar ao homem racional sem caminhos de linguagem?

Do ponto de vista da historiografia, Foucault é um hegeliano, um dos raros porém ainda existentes defensores da assim chamada "História Filosófica", cuja marca principal é sua confiança apenas na lógica e na dialética e seu desprezo pelas evidências empíricas, materiais hoje considerados indispensáveis pelo historiador. Bentivoglio e Merlo (2014, p.39) em seu livro "Teoria e Metodologia da História - Fundamentos do conhecimento histórico e da historiografia" resumem essa vertente de pensamento histórico como:
A história filosófica das luzes chegará até Hegel, tendo como base uma filosofia da história, que defende uma história universal, linear, não mais governada pela providência, como na Idade Média, mas pela razão, com um sentido progressivo cujas leis naturais poderiam ser compreendidas. [...] De qualquer modo, há certo desprezo pelas fontes, pela empiria, e uma valorização, sobretudo, da interpretação metafísica na busca de sentidos ou ideias universais como fios condutores da história.
Ou seja, para quem antes dizia que não havia uma verdade universal e sim verdades particularizadas, nos deparamos agora com alguém que se vale de uma lógica universal, linear governada pela razão, história essa cujo motor perpassa e ignora todas as individualidades (objeto de crítica profunda de Kierkegaard). Todos os fatos históricos citados por Foucault estão ideologicamente distorcidos de modo que sirvam aos seus interesses, isso é fácil de se fazer quando não se tem nenhum apreço pela empiria. Não quero com isso dizer que nãos e possa interpretar ideologicamente a informação de um documento, mas sim, que sem esse documento, fica mais fácil distorcer a realidade pra justificar qualquer ideia idiota. Se as evidências destroem minha teoria, pior pras evidências.

Foucault (2014, p.66), segundo Scruton, ainda nos alerta que NADA é feito sem que seja em nome do poder. Então eu lanço uma perguntinha... Será que Foucault escreveu suas obras em nome do poder ou com total despretensão, ou, na melhor das hipóteses, com profundo desejo humanitário de enriquecer o conhecimento humano? Sua obra pretende-se como verdade universal ou ser apenas mais uma episteme serva de algum poder ascendente? Temos aqui novas contradições performativas. 
Provavelmente o "gauchiste" nos diria por representar os oprimidos, os proletários e toda sorte de infelizes que levaram um pé no traseiro da sociedade burguesa, ele possui uma visão objetiva da história, algo que só o proletariado, segundo Marx, poderia ter. Ai ai... Foucault e Marx, proletários como eles só...

Por fim, Foucault diz que o poder é inerente a qualquer tecido social. (204, p.70) Sim, isso é verdade e Scruton rebate: Como acabar com o poder sem então acabar com o tecido social? Foucault não traz resposta. A grande investigação "arqueológica" de Foucault começa do nada e termina no nada.

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SCRUTON, Roger. Os pensadores da nova esquerda. São Paulo: É Realizações, 2014.

BENTIVOGLIO, Julio Cesar; MERLO, Patrícia. Teoria e metodologia da história - fundamentos do conhecimento histórico e da historiografia. Vitória: UFES, 2014.

domingo, 22 de março de 2015

Análise do distributismo segundo a percepção de Gustavo Corção sobre Chesterton.


Terminei hoje a leitura do livro "Três alqueires e uma vaca" do democrata cristão Gustavo Corção. O livro é uma obra prima, ao contrário do já comentado aqui "Patriotismo e nacionalismo" ele é muito maior, mas igualmente rico. A forma que o filósofo brasileiro escolheu para expor o pensamento de Gilbert Keith Chesterton (personagem central do livro), foi ordenado e interessante, como quem apresenta uma pessoa, seus fundamentos filosóficos e políticos com o objetivo de localizá-lo no espectro político.

A parte I - "O humanismo em Chesterton" - é uma análise biográfica. Sim, é injusto chamar apenas de biografia, uma vez que Corção dá seus palpites e opiniões como quem conversa com um amigo, por isso mesmo o filósofo brasileiro diz que "escreveu um livro COM Chesterton e não SOBRE Chesterton". É como se Gustavo estivesse apresentando um velho conhecido a um amigo ou parente que o desconhecia. Chesterton é, assim,  apresentado ao leitor, em seus trejeitos, carranca e hábitos.

A parte II - "O homem e suas ideias" - é uma apresentação ou exposição dos princípios filosóficos mais caros e basilares do pensamento político e econômico do grande pensador inglês. Se no primeiro capítulo Corção apresenta Chesterton como um crítico do desumanismo da sociedade moderna que se importa com as partes das pessoas e não com as pessoas em sua totalidade e complexidade, no segundo ele apresenta-nos Chesterton como um legítimo humanista, e para isso Corção por vezes recorrer a Jacques Maritain.

A parte III - "Para não ser doido..." - Corção faz uma abordagem quase epistemológica de Chesterton, a noção de "mistério" (que seria um gap epistemológico) em contraposição a loucura do homem racional. Aqui Chesterton demonstra que o homem moderno é quase um psicopata, pois perdeu tudo: sua humanidade, sua moral e sua dignidade, mas não perdeu a razão. E para Chesterton, um homem que só tem a razão e nada mais é louco. Um psicopata. Corção reconhece alguns desses exemplares no Nazismo e no Comunismo, como quem estivesse se antecedendo ao psiquiatra polonês Andrew Lobaczewski que escreveu "A ponerologia política", um amplo estudo sobre a liderança política na Europa comunista onde todos os lideres eram psicopatas e transformaram o seu próprio povo em um coletivo de histéricos delirantes e subservientes ao discurso do partido.

"O louco é o homem que perdeu tudo, exceto sua razão." - G.K. Chesterton
Chesterton cita como exemplo o cientista behaviorista Henri Pieron, que a fim de testar as associações psicológicas entre alguns estímulos e as respostas a eles, torturou covardemente um bebê ao lado de sua assistente. 

Parte IV - "Para não ser bárbaro..." - O título da quarta parte é sugestivo, se as duas anteriores apresentam os fundamentos filosóficos de Chesterton, a quarta apresenta seus fundamentos políticos, sua defesa da democracia, do respeito a constituição, os contratos, leis e acordos. O bárbaro em sua concepção originária na Grécia e na Roma republicana era aquele homem que vivia sujeito a um rei ou imperador, não sendo portanto, totalmente autônomo e livre, além de ser um sujeito que não falava o grego ou o latim. Assim sendo, no mundo antigo, estes indivíduos não eram considerados civilizados. Para Chesterton e Corção, o homem "esperto", o homem "divorciado" e o "ditador" são similares, pois acreditam que podem destruir todos os contratos e rasgá-los como um punhado de papel vazio ao seu bel prazer. Para Chesterton, há uma reciprocidade nas relações sociais entre o Estado e o povo que deve ser orgânica e natural. O feedback é sempre visível quando as leis "tem o tamanho do homem", isto é, levam em conta a natureza humana e as culturas que dela nascem e quando o homem obedece a essas leis, não por medo, mas por se reconhecer nela.

Assim sendo, se a parte I, II e III é uma pregação contra o übermensch, de Nietzsche, que é um gigantismo sem a medida do homem, a parte IV é uma pregação jusnaturalista de que as leis devem reconhecer e serem reconhecidas pela natureza humana. É a essência de "Três alqueires e uma vaca".

Parte V - "Para não ser escravo..." - a condição mais humilhante, cruel e covarde da força de trabalho de uma sociedade é a de escravo. O temor de Chesterton era que o capitalismo desenfreado como o que ele testemunhou na Inglaterra do "laissez faire" é que o capitalismo liberal viesse a levar as pessoas a serem expulsas de suas já pequenas propriedades em favor dos oligopólios e monopólios das grandes propriedades. Chesterton temia que as pessoas voltassem a escravidão. O gigantismo da propriedade privada assustava Chesterton, assim como o gigantismo do Estado assustava Corção. Para Chesterton, a propriedade, assim como as leis e a própria autoimagem que o homem faz de si devem ter o tamanho do próprio homem, as proporções humanas.
É bem verdade que as ideias dos economistas clássicos, como Adam Smith, John Stuart Mill e David Ricardo serviram de molas propulsoras para as práticas econômicas da época, mas não necessariamente corresponderiam ao que defendiam os supracitados economistas (Cf. Lionel Robbins), mas isto não tira do liberalismo econômico tal como existiu no fim do século XIX e início do XX o resultado inescapável da concentração da propriedade privada nas mãos de enormes conglomerados que expurgavam os pequenos proprietários de suas humildes propriedades. Corção, por outro lado testemunhou o estatismo do Estado Novo, concentrador e corrupto, viu as engrenagens mais perversas da máquina estatal de Getúlio Vargas.

Podemos resumir a posição de Chesterton sobre o capitalismo como sendo o regime econômico onde o capital reside nas mãos de poucos homens que exploram os demais. Nesse sentido, o capitalismo é um vício assim como o comunismo que extirpa a propriedade privada entregando-a toda ao Estado.

O distributismo é, na ética dos extremos de Aristóteles e de São Tomás de Aquino, um justo meio termo, onde a propriedade está distribuída em proporções mais ou menos justas entre o máximo possível de pessoas.

G. K. Chesterton

O distributismo e a Economia Social de Mercado...

A ideia distributista de Chesterton não é utópica, isto é bem verdade... Mas também não se pode dizer que ela é economicamente eficiente. Por ser defensora sempre da pequena fábrica, do pequeno artesão, da pequena propriedade rural, ela ignora as vantagens de industrias úteis e que são grandes por sua própria natureza, como muito bem realça Gustavo Corção. A indústria de trens, bondes, navios, não podem ser reduzidas a pequena propriedade, entretanto são úteis para trazer prosperidade. Por vezes Gustavo Corção faz adaptações destas ideias na realidade em conceitos que muito se aproximam da economia social de mercado. A diferença entre os princípios filosóficos de uma e outra reside num mau suporte teórico do capitalismo oferecido pelos economistas clássicos e na sua interpretação crítica marxista. A revolução marginalista, decisiva para o capitalismo liberal, afetou também a inteligentzia cristã (protestante e católica) que percebeu os erros da velha abordagem econômica, isso levou os democratas cristãos a uma concepção mais realista, moderna e racional do capitalismo que é justamente a Economia Social de Mercado.

Com isto, a própria concepção do distributismo evoluiu para uma nova forma de economia capitalista pois foi afetada pelas descobertas da revolução marginalista, onde fica evidente que o crescimento econômico e o lucro (assegurados pela Igreja ao contrário do que se pensa) não eram mais vistos como resultado da exploração e da mais-valia, mas sim como criação de riqueza "ex-nihilo". Tenho motivos para crer que, caso Chesterton estivesse entre nós hoje, e visse os progressos que os teóricos da Economia Social de Mercado fizeram (e que são muito bem demonstradas por Michel Albert em "Capitalismo versus capitalismo"), teria bons motivos para, se não se tornar um defensor dela, ao menos se tornaria um grande respeitador das ideias ordoliberais.

Concluo esta resenha, com um sentimento de enorme alegria, por ter tido a oportunidade - que creio que era o que Gustavo Corção queria que me sentisse como - de ter sido apresentado a um novo grande amigo, Gilbert Keith Chesterton.