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quinta-feira, 9 de julho de 2015

Democracia-Cristã, Socialismo e Objetivismo

Transcrevo aqui a excelente postagem do blog português "Golpe de estado" comentando sobre a Democracia Cristã. - Na sequência das próximas semanas, tratarei mais enfaticamente dos aspectos econômicos da Democracia Cristã que tem como sua proposta a Economia Social de Mercado.

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Alguns liberais, não todos, gostam de pintar a Democracia Cristã (DC) como um socialismo light… Não percebo porquê, mas talvez seja por alguns acharem que o liberalismo é a única inspiração possível para a direita democrática.
Esta crença é facilmente desmistificada tomando, como exemplo, o caso alemão, sueco ou holandês (para não alongar muito a lista).

Achar que a DC se limita às encíclicas “Populorum Progressio” e “Rerum Novarum” é bastante redutor. Assim como é redutor achar-se que se tem de ser crente para se ser democrata-cristão.
Não existe incoerência nenhuma. A DC defende o Estado laico, logo, não se vislumbra qualquer obrigatoriedade de se ser crente para se ser democrata-cristão.  Alguém que acredite nos 10 mandamentos terá que, obrigatoriamente, ser crente no deus dos judeus e cristãos?

Quando se fala de socialismo e democracia-cristã, comparando as duas, é impossível não apontar que desde o início o socialismo foi anti-capitalista (agora não o será, nomeadamente o intitulado de “socialismo democrático” ou “social-democracia”), equanto que a democracia-cristã nunca o foi.
A DC tem, isso sim, uma visão reformuladora do capitalismo, mas isso não é ser contra, tão somente é ser construtivo. É ser a favor de um aperfeiçoamento, de uma evolução que, na visão democrata-cristã, passa por uma consciencialização de imperativos éticos cristãos aplicados à vida e aos negócios. O liberalismo moderno assenta, em grande parte, no Objectivismo de Ayn Rand que, de certa forma, colidem com alguns pressupostos éticos cristãos.

O problema ético do Objectivismo de Rand assenta no facto de esta ignorar completamente a nobreza ética que constitui a acção de um homem que vise o bem comum dos seus pares e não apenas o seu bem individual. Limita-se a chamar-lhe “altruísmo”, classifica-a como “fraqueza”. A DC não partilha dessa visão. Acredita num Homem que tenha consciências sociais. O Homem não cria apenas para o seu benefício. Cria também em benefício dos outros, exemplos não faltam durante a História. O Objectivismo de Rand, sendo uma inspiração interessante no que toca a produtividade das sociedades, ignora esse facto.

Rand ridiculariza toda a acção “altruísta” por achar que este tipo de acção é contra-natura, é contra o próprio interesse individual. Critica a sociedade que valoriza actos altruístas, intitula-os de uma barbárie de sacrifício individual. Rand acha que o Homem tem de funcionar sozinho, com a sua mente como única arma e funcionando num sistema de troca justa. Pois acontece que, infelizmente, existem pessoas que nada têm para oferecer para poderem receber algo em troca.

Defender um Estado como pessoa de bem que ajude a aliviar a pobreza não é ser-se socialista. A DC não o é e defende-o pelo menos. O importante é perceber que existe uma diferença entre um altruísmo para "ajudar a levantar" e um altruísmo que cria dependência e sustenta a pobreza.  A DC vê a compaixão como um bem, mas em Rand não existe o enaltecimento da compaixão, existe o enaltecer do “egoísmo” e por isso, pelos parâmetros democratas-cristãos, existe essa falha moral/ética.
“Altruism permits no concept of a self-respecting, self-supporting man—a man who supports his own life by his own effort and neither sacrifices himself nor others … it permits no concept of benevolent co-existence among men … it permits no concept of justice”- Aynd Rand, “Virtue of Selfishness”
Talvez a grande problemática é que Rand e os Objectivistas decidem dar às palavras “egoísmo” e “altruísmo” um significado mais produndo de filosofia de vida. Todos nós somos egoístas em algumas coisas e altruístas noutras. Por isso, não se vê grande interesse (para além de meramente académico) em estar a dar novas definições a essas palavras.

A grande questão, que é mais "palpável" a nível político, é a do papel do Estado. Se o Socialismo acredita na pureza do Estado omnipresente, o Liberalismo acredita na pureza do indivíduo e, em teses mais radicais, no fim do Estado. A história já provou que a Sociedade sofre quer com o Estado sufucante e dominador, quer com o Estado não regulador que acredita cegamente na ética de cada indivíduo. Por isso a Democracia-Cristã acredita no meio termo.

Acreditar que só o Estado sabe gerir é utopia. Acreditar que os indivíduos, sozinhos e sem regras, gerem bem, é outra utopia. Aqueles liberais que se recusam a admitir as falências e as falhas dos modelos económicos extremamente liberais de alguns países e continuam a advogar, dogmaticamente, a pureza do mercado livre e desregulado, assemelham-se aos Comunistas que também recusaram (e ainda recusam) perceber a falência do modelo que preconizavam.
Algumas coisas não são preto ou branco, têm intermédios e o centro-direita é um espaço grande que aguenta bem com convivências, saudáveis até, entre democratas-cristãos e liberais (que resultam bem noutros países) que, visto bem as coisas, inspiram-se e "controlam-se" positivamente. O Homem não é bom por natureza. A Democracia não é perfeita.

A esperança reside em que haja um Estado de Bem, composto, logicamente, por Homens de Bem, que equilibre a balança entre altruísmo e egoísmo sem interpretações utópicas e dogmáticas de socialismos e liberalismos.

domingo, 5 de julho de 2015

Por que o Canadá não teve falências de bancos em série em 1929?


Um dos mitos minarquistas e anarcocapitalistas mais comuns no meio anglo-americano (ainda não tive a oportunidade de vê-lo usado usado no Brasil como argumento) é que o Canadá foi pouco afetado no sistema bancário em 1929 porquê não tinha um Banco Central e o governo simplesmente não intervinha em nada. Isso é apenas parcialmente verdadeiro. É verdade que o Canadá foi pouco afetado, entretanto essa versão da história ignora outros fatores, incluindo o histórico de intervenções do governo canadense para estabilizar seu sistema bancário e as inúmeras promessas implícitas tanto pelos Conservadores quanto pelos Liberais em 1920 de que o governo - em caso de crise - protegeria os poupadores.

O plano de fundo dessa questão é que no século XIX o maior banco privado do Canadá, o BMO (Banco de Montreal), funcionava como uma grande corporação subsidiada pelo governo (como as empreiteiras do Petrolão) fazendo JUSTAMENTE o papel que um Banco Central fazia (Bordo 2002: 121), fiscalizando e literalmente salvando bancos insolventes, o BMO era comprometido pelos seus laços corporativistas com o governo a ser responsável pela estabilidade do Sistema. Se por um lado isso representava facilidade para esquemas de corrupção, isso representou a "salvação da lavoura" nos tempos de crise.

Em 1907 e 1914, os governos canadenses interviram para parar crises financeiras no sistema bancário provendo reservas. (Bordo 2002: 121). 

Mais ainda, o partidos conservador canadense (durante seu mandato de 1911 a 1917) implementou o “Finance Act” de 1914, que deu ao governo a autoridade necessária para emitir seu próprio papel-moeda, então agora o Estado tinha o papel de emprestador em último estágio (Grossman 2010: 99). Uma emenda de 1923 estendeu o Finance Act, e o Canada continuou a ter uma janela de redesconto e maior facilidade para que o governo atuasse como emprestador de último recurso (Bordo 2002: 121), mesmo sem ter nenhum banco central oficial até 1934.

De 1920 a 1921, Canada também foi comandado pelo partido conservador e medidas críveis foram tomadas pelo governo para prevenir uma séria falência de bancos fazendo vista grossa para uma fusão monopolística em 1920. Neste mesmo ano, o ministro das finanças conservador Sir Henry Lumley Drayton defendeu a ação do governo e explicitamente disse que os depósitos do "Merchants Bank seriam garantidos em caso de crise”. (Kryzanowski and Roberts 1993: 365). Isto foi publicado e repassado na imprensa. 

O mesmo Partido Conservador estava no poder de 1930 a 1935 durante os mais sérios anos da Grande Depressão, e o primeiro ministro R. B. Bennett mesmo concordou em estabelecer o Bank of Canada – o Banco Central do Canadá em 1934.

De 1935 a 1948 o partido liberal estava no poder, e não há dúvidas de que eles deram garantias de que os depósitos bancários estariam a salvo em caso de crise. Quando em 1923, o Home Bank of Canada faliu, “depositantes no Home Bank pediram ao governo canadense por uma compensação e receberam o pagamento de 35% do valor de seus depósitos” (Kryzanowski and Roberts 1993: 365). 

O Ministro das Finanças algum tempo depois explanou à Comissão McKeown (1924) a política do governo:

“Sob nenhuma circunstancia eu permitiria um banco falir no período em questão... Se isso pareceu para mim que o banco não estava apto a cumprir suas obrigações públicas, eu deveria ter tomado as medidas necessárias para que algum outro banco ou bancos ajudassem a conter a crie, esses bancos teriam que dar a necessária assistência sob o Finance Act de 1914.” (Kryzanowski and Roberts 1993: 366).

Até os governos provinciais providenciaram alguma estabilidade: Em 1923 o governo de Quebec providenciou 15 milhões para salvar o Bank Nationale com o Banque d’Hochelaga a ajudar a evitar a falência. (Kryzanowski and Roberts 1993: 365). 

Mais tarde em 1924 depois de salvar o Sterling Bank com uma fusão com o Standard Bank, a imprensa canadense noticiou que o governo “estava determinado a impedir que houvessem mais falências” (Kryzanowski and Roberts 1993: 366).

Kryzanowski e Roberts concluem:
“…As evidências que os documentos históricos oferecem são consistentes com nossas hipóteses que começaram em 1923, uma garantia implícita do governo canadense de que  garantiria os depósitos de todos os bancos nacionais foi dada. O governo ativamente facilitou fusões durante a crise da década de 1920, ajudando os bancos a evitar a insolvência e com sucesso criou confiança no público que nenhum banco seria permitido falir. Essa confiança permaneceu até a década de 1930.” (Kryzanowski and Roberts 1993: 366).
BIBLIOGRAFIA

Bordo, M. D. 2002. “The Lender of Last Resort: Alternative Views and Historical Experience,” in Charles Goodhart and Gerhard Illing (eds.). Financial Crises, Contagion, and the Lender of Last Resort: A Reader. Oxford University Press, Oxford. 109–125.

Grossman, Richard S. 2010. Unsettled Account: The Evolution of Banking in the Industrialized World since 1800. Princeton University Press, Princeton.

Kryzanowski, Lawrence and Gordon S. Roberts. 1993. “Canadian Banking Solvency, 1922–1940,” Journal of Money, Credit, and Banking 25: 361–376.

Source: http://socialdemocracy21stcentury.blogspot.com.br/2012/09/why-did-canada-have-no-mass-banking.html